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Chester Bennington foi o último rockstar a dialogar e entender os anseios da adolescência

O Linkin Park pode não representar nada para quem já passou dos 40 anos ou despreza bandas com grande popularidade. Mas para quem foi adolescente o início dos anos 2000, eles foram o icônicos.

Com 70 milhões de álbum vendidos pelo mundo, o sexteto californiano conquistou o coração da juventude e também o ódio dos headbangers, que os consideravam muito “leves”, “comerciais” e “pop”.

Ao surgir com o aclamado e ultra popula Hybrid Theory, lançado há 17 anos, eles apresentaram uma mistura de rap, efeitos eletrônicos e heavy metal em singles que alternavam momentos de agressividade e calmaria. Essa mistura, que já havia sido testada por outras bandas nos anos 90, é o que fez muita gente se aproximar do heavy metal em um período onde o gênero começava a se tornar conservador e sem renovações estéticas.

A interação dos vocais de Chester Bennington e Mike Shinoda são uma parte interessante do estilo de música do Linkin Park, com Bennington sendo considerado o vocalista principal e um dos berros mais lembrados do rock e Shinoda, como “vocalista rapper”

Além da parte instrumental e técnica, é preciso ressaltar que as letras de Chester Bennington, morto nessa semana, e Mike Shinoda dialogavam abertamente com um público que enfrentava os anseios e dúvidas comuns à adolescência.

Bennington descreveu o processo de composição do primeiro álbum para a revista Rolling Stone, em 2002. E fica claro que tudo foi baseado em experiências pessoais.

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“É facil cair naquela cilada — ‘pobre de mim, pobre de mim’, é dai que canções como Crawling vem: ‘Eu não posso me aguentar’. Canções como essa falam sobre assumir a responsabilidade pela sua situação. Em ‘Crawling’, eu não falo ‘você’ em nenhum momento. É sobre eu ser o motivo de estar como estou. Tem alguma coisa que me agarra e me puxa para baixo”, comentou à época, já dando sinais de um certo incômodo com a própria existência.

Até por falar com esse público e tentar dar resposta a ele, músicas da banda foram incluídas em trilhas sonoras no cinema e os clipes não saíram da programação da MTV por anos. Essa fase inicial também rendeu prêmios do Grammy e no VMA para a banda. O sucesso ainda foi repetido com o segundo disco, Meteora, que incluía hits como Faint e Breaking the Habbit.

Com o amadurecimento da geração que cresceu com o Linkin Park, a banda foi mudando e também perdeu a relevância que conquistou nos primeiros cinco anos. Não que tenha se tornado obsoleta ou decadente. Longe disso. Mas mesmo os integrantes passaram a se envolver em projetos paralelos, como o Dead by Sunrise, banda solo de Chester.

Shinoda, por sua vez, colaborou com o Depeche Mode na remixagem de Enjoy The Silence, além de montar o Fort Minor. Os próximos projetos do Linkin Park, que estrearam bem nas paradas, já traz a banda flertando cada vez mais com a música eletrônica e se distanciando do nu metal. Esses projetos são marcados pelo peso, mas não nas guitarras e sim nas ambientações soturnas.

A mudança de direcionamento foi arriscada, mas com uma recepção positiva entre os fãs, que continuaram lotando estádios para ver o Linkin Park onde quer que fosse. No festival Maximus, que aconteceu no Brasil em maio, 40 mil pessoas lotaram Interlagos para assistir principalmente a banda.

Headliner de uma noite que ainda tinha o Slayer, o grupo viu uma plateia recheada de adolescentes que enfrentaram as rodas de pogo e o 2 horas do trash metal do jurássico grupo americano. Nas redes sociais, essa experiência foi tratada com ironia à época. Posts de jovens que perderam a mãe nessa confusão que precedeu a apresentação do Linkin Park viralizaram nas redes.

Com esses prints que invandiram as redes sociais, ficou claro que o Linkin Park ainda dialogava com os jovens após quase 20 anos de existência. Um feito no mínimo relevante, principalmente num momento onde jovens dão preferência para divas pop e astros do rap e funk como representantes dos seus anseios. O que prova que Chester Bennington foi o último rockstar a dialogar e entender os anseios da adolescência e nunca perdeu essa essência.

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