Micropaís tem taxa de mortos 4 vezes maior que a da Itália

Até esta sexta (27), eram 223 contaminados e 21 mortos, para uma população de 34 mil habitantes, menor que a de muitos bairros de São Paulo

 

 

A crise do coronavírus tornou uma piada de mau gosto o epíteto “A Sereníssima”, pelo qual é conhecida a montanhosa República de San Marino. O microestado encravado no centro-norte da Itália, com área pouco maior que a do bairro paulistano de Itaquera, é o país mais afetado no mundo pela pandemia, em termos proporcionais.

Até esta sexta (27), eram 223 contaminados e 21 mortos, para uma população de 34 mil habitantes, menor que a de muitos bairros de São Paulo. Isso significa uma taxa de 6,55 infectados para cada mil habitantes, ou quatro vezes e meia a da Itália, um dos países em que a pandemia apresenta contornos mais dramáticos.

Em número de óbitos, o índice de San Marino é de 0,61 por mil habitantes, o quádruplo do italiano. “Estamos em uma situação crítica, mas a população está respeitando as regras estabelecidas pelo governo”, disse à reportagem o médico Gabriele Rinaldi, membro do grupo de emergência sanitária criado pelas autoridades locais em 23 de janeiro. Ele rejeita o termo “dramática” para descrever a situação, porque todos os pacientes estão recebendo atendimento hospitalar e alguns, acompanhamento domiciliar. Mas o drama emocional é inevitável, já que num lugar tão pequeno todos conhecem alguém que morreu ou adoeceu. “As repercussões morais [sobre a população] saberemos depois”, afirma Rinaldi.

O Hospital do Estado, maior centro público de saúde do país, aumentou de 6 para 16 os leitos de UTI e converteu toda a parte de geriatria em uma ala específica para a Covid-19.O combate à doença, em parte, é auxiliado pelo fato de San Marino ter um sistema de saúde pública universal de boa qualidade. O padrão de vida também é alto, com renda per capita de US$ 59 mil (R$ 300 mil), o que resulta numa população bem alimentada e, até o início da pandemia, saudável.

A cooperação com as autoridades italianas tem sido grande. Segundo Rinaldi, a Itália doou três respiradores artificiais e uma tenda para ser utilizada como hospital de campanha em caso de necessidade, além de fazer os exames para diagnosticar a doença em casos investigados.”O número de profissionais de saúde que temos é suficiente, apesar de estarem trabalhando mais horas”, afirma.”Se o Brasil tiver disponíveis enfermeiros e médicos especializados em terapia intensiva, estaremos prontos a recebê-los para podermos suportar o trabalho”, diz o médico.

O trânsito na fronteira da pequena república com a Itália foi totalmente restrito, e apenas moradores e pessoas com assuntos urgentes a tratar no país são autorizadas a ingressar, mediante cuidadoso controle policial. Por isso, a estrada que liga San Marino à cidade italiana de Rimini tem tido longas filas de carros.Os primórdios da microrrepública podem ser traçados no século 4, embora o reconhecimento de um Estado com características parecidas à de hoje tenha ocorrido pela Igreja Católica apenas no século 13.

Desde então, San Marino sobreviveu como entidade independente, primeiro ao processo de unificação italiana, no século 19, e depois a duas guerras mundiais.É uma república parlamentarista, com dois chefes de Estado de caráter cerimonial, chamados de capitães-regentes, e um Conselho com deputados eleitos. Economicamente, sobrevive à base de turismo e exportação de cerâmica e tecidos.

Até o início da década, era considerado paraíso fiscal, mas fez reformas em seu sistema de tributação por exigência da União Europeia.A razão pela qual o coronavírus se espalhou tão rapidamente ainda é objeto de debate, mas há algumas indicações. A mais óbvia é que o país está geograficamente imerso em algumas das regiões mais afetadas pela crise na Itália, com quem tem relações umbilicais.Além disso, a exemplo dos italianos, tem mais de 20% da população acima de 65 anos, principal grupo de risco. E, talvez o que tenha feito a diferença mais do que tudo, todos ali vivem espremidos.

A densidade demográfica de San Marino é de 557 habitantes por km², contra 212 da Itália.Outros microestados também estão no topo da lista de países mais afetados proporcionalmente pela pandemia, como Andorra, Liechtenstein e até o Vaticano, que teve quatro casos (mas nenhuma morte).Dono de uma agência funerária em San Marino, Marco Berlini afirma que seu movimento cresceu 50% nos primeiros três meses do ano na comparação com 2019.

“A vida cotidiana mudou muito, por causa das restrições impostas pelo governo. As pessoas podem deixar suas casas apenas para comprar alimentos, fazer trabalho essencial ou dar assistência a idosos que moram sozinhos”, disse Berlini à reportagem.Na semana passada, o governo da microrrepública pediu à população que estenda a bandeira azul e branca do país na frente de suas casas, em sinal de unidade. Chamou a campanha de “Uma Bandeira, Uma Nação”, numa tentativa de levantar o ânimo de um lugar outrora pacato.

 

 

 

 

 

Fonte: Folha Express

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